terça-feira, 5 de julho de 2011

A palavra dos Catadores - Discurso do Irmão Antônio Cechin na Conferência que discutiu a miséria no RS

             Pediram-me que viesse aqui falar em nome dos catadores. Represento portanto neste momento a categoria mais baixa da classe trabalhadora do Rio Grande do Sul. Embora a mais humilde e última na escala social é uma das mais numerosas e mais importantes do Brasil. O presidente Lula no Natal do Catador, em dezembro passado, na cidade de São Paulo, disse que são mais de um milhão os brasileiros que trabalham na triagem dos resíduos sólidos. Organizados em coletivos de trabalho, nos chamados Galpões, e como tais com ganhos melhores são infelizmente muito poucos.
             Face à situação do nosso planeta Terra, quando os analistas dizem que a espécie humana corre o risco de extinção, causado particularmente pelo excesso de lixo produzido pela sociedade consumista e que polui o planeta de ponta a ponta, particularmente a base de toda a vida possível no universo, que são os mananciais de água no curso dos quais a humanidade costuma desde séculos lançar o lixo, o catador inventa uma profissão de sanitarista de grandeza imensamente desproporcional à sua pequenez. Ele é médico do Planeta inteiro, sanitarista da Casa da humanidade toda e ao mesmo tempo de toda a criação. O despoluidor por excelência.

             O catador mudou até o próprio conceito de lixo. Para ele não existe lixo, mas apenas matéria-prima acumulada e fora de lugar, à espera de algum trabalhador amigo da natureza que lhe faça a triagem e a devolva às indústrias. O catador assim é realimentador de toda a cadeia produtiva.
             Na linguagem da teologia da Libertação, nosso catador é considerado Profeta da Ecologia porque foi ele que levantou e continua sempre levantando no país, com veemência própria, o problema da poluição generalizada ao mesmo tempo em que levanta a bandeira da despoluição. Ele dá à sociedade consumista uma notícia má e ao mesmo tempo uma notícia boa. Ele denuncia a triste situação em que se encontra o planeta e ao mesmo tempo anuncia a saída possível, através dos 3 Rs: Reduzir a quantidade de resíduos, Reutilizar tudo o que for possível e Reciclar devolvendo matéria-prima às fábricas.
              Num espraiamento da missão do Catador, nós podemos com toda a certeza afirmar que nós todos que aqui estamos hoje todos reunidos somos todos Profetas e Profetizas porque amunciamos e denunciamos, damos notícia má e outra boa ao mesmo tempo. Estamos aqui nos conscientizando de que a pobreza extrema de muitos brasileiros é vergonha para todos, é nosso mal maior. Mas ao mesmo tempo estamos nos municiando a fim de acabar o mal do nosso Brasil, unidos queremos acabar com ele libertando assim nossos irmão sofredores e oprimidos.

              Dizem os economistas que, para ser criado um único emprego no campo, é necessário que antes se faça um investimento de 100 mil reais. Para um emprego no meio urbano, deve anteceder um investimento de 80 mil reais.

               Ora ajudando papeleiros a se organizarem em coletivos, criamos centenas e centenas de empregos com investimento zero, porque o trabalho com resíduos brota espontaneamente das mãos voluntárias e repletas de grande criatividade por parte do próprio catador, pois encontra matéria prima super-abundante por toda a parte. Na roça praticamente não existe lixo. Trata-se de um produto tipicamente urbano como conseqüência do consumismo desenfreado com o excesso de embalagens.

                Quando conseguimos convencer carrinheiros que trabalham individualmente a trabalhar coletivamente, é chegado o momento de, não raro, termos de ocupar elefantes brancos que sempre existem em qualquer cidade de tamanho médio para cima. Com isso também para a triagem coletiva em local conveniente, não dispendemos um único tostão.

                 Para combater a pobreza persistente em nosso país, uma das saídas que consideramos mais correta é como governo e como sociedade decidem ir ao encontro desses milhares de pobres que, acossados pela fome, antes mesmo de pedir qualquer auxílio, arregaçam as mangas e se põe a trabalhar com os rejeitos do consumismo..

                 Sem mesmo ainda pensar em método Paulo Freire de educação libertadora, criado especialmente para pobres e oprimidos, nos basta de início embarcar no trabalho com catadores, motivados apenas pela frase de Saint Exupéry em seu livro Terra dos Homens: “Mete-os juntos a construir uma torre e tê-los-ás transformado em irmãos.”E se em vez de uma torre for o trabalho de despoluição do universo, poderá haver motivação mais nobre e digna do que juntos despoluir o universo?
                  Trabalhando em mutirão, solidários na partilha em que cada um ganha de acordo com as horas trabalhadas, iniciam eles de maneira natural e sem artificialismos, sua ascensão social imediata pois constroem Comunidade que é fator de ascensão certa, até porque o projeto do Mestre de Nazaré é a organização de Comunidades para mutua ajuda. Os humanos, particularmente os mais fracos, só se tornam fortes quando unidos. Não é por mero acaso que o povo anda gritando Brasil a fora “Povo unido, jamais será vencido!”

                   A Caminhada para a integração social será menos sofrida e mais rápida se lhes proporcionar-mos condições melhores de trabalho, tais como cozinha comunitária, formação, estudo, creche e escola para seus filhos. Tudo facilitado quando já estão trabalhando juntos.

                   A lei do presidente Lula, no meu entender, é a melhor lei do país que veio diretamente ao encontro dos sonhos do catador. Juntou a fome com a vontade de comer. Não é por nada que o ex-presidente não conseguiu conter as lágrimas quando um repórter da Record o interrogou sobre os catadores. Depois de retirar o lenço do bolso e enxugar os olhos, Lula retomou a fala dizendo: “A minha maior alegria nos oito anos de governo, foi presentear os catadores com a lei que garante a eles a organização em coletivos de trabalho a fim de serem os donos, e só eles, de toda a cadeia produtiva dos resíduos sólidos, desde a coleta seletiva feita por eles, seguida da triagem, da prensagem, do artesanato, da reciclagem produzindo assim novos objetos e a venda. O catador se começa analfabeto dentro de um coletivo,, pode se alfabetizar, cursar os três primeiros graus de ensino e fazer a universidade. Tudo isso sem abandonar o campo da reciclagem. Depois de diplomado por uma universidade será ainda mais útil na organização nacional da categoria.

              Para concluir, um pedido muito pessoal.

              Nos 30 anos de voluntariado ao lado de catadores, não dispusemos de dinheiro de espécie alguma até o dia em que o ex-presidente Lula, em agosto do ano passado, em Santa Cruz do Sul, no ato de inauguração da fábrica de etanol dos Pequenos Agricultores, nos descobriu e diante de grande multidão de pessoas chamou-nos ao palco, nos mandou fazer um projeto para catadores que ele garantiria os recursos correspondentes.
               Pois esse projeto está tramitando durante um ano já. Achamos que está tempo demais esperando por aprovação. A equipe de profissionais que nos acompanha, está mais do que disposta a fazer a sua parte diminuindo a pobreza. Solicitamos à ministra aqui presente seus bons ofícios junto à Petrobrás. Afinal de contas o Brasil é uma república de caráter presidencialista. Entendemos que a palavra do presidente é a da autoridade suprema da nação e que deve ser cumprida.

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